domingo, 28 de outubro de 2007

Poema do livro ApoesiApoemA

Que o Senhor Salve, Salve a Bahia ouvindo a nossa mistura e comendo a nossa dança.

São negros, pobres, brancos, cinzas da lei, gays, heterossexuais disfarçados, amigos, inimigos, desconhecidos, mulheres, assexuados, muitas pernas muitas cabeças, muitos sorrisos que explodem em seus isopores esperando para serem consumidos. Santos se masturbando, santas cruzando com orixás e iemanjá com ciúmes, mas também vão rosas e oferendas e corpos
e espermas ao mar, o negão que passa, a neguinha que quebra no novo ritmo popular revolucionário e sensual: o arrocha. A música misturada, a vida engraçada, o cidadão que pede um gole de vinho: "oh meu pai, dá um gole".
É a criança que pede carinho, dinheiro, muito dinheiro
e um grande segredo que fazem as pessoas entrarem muito dentro dos isopores e saírem sorridentes, uns com dentes, outros sem dentes, e o asfalto péla, vai e vem gente

piririm- pompom- piririm- pompom
(a música revolucionária e sensual)
ssquidum, dum, dum, ssquidum, dum, dum
(os tambores misturados e negrais)
tchamrrram, tcharrram, quetchamrrram, tchamrrram, quetchamrrram, tchamrrram
(talvez Jimi molejo e seu samba nacionais)

enquanto isso na mais pura tranqüilidade e depuração alguém lê as páginas de um jornal que custa mil reais

reais sorrisos: "me dá um gole porque a festa é de graça e não tenho dinheiro", bebe bebe vai bebe a fome some a dor passa
o gozo meu Deus, talvez com muita cachaça
falsos sorrisos, burgueses, convidados e os sem convites, artistas estrelas, realezas, certezas, embolados, lacrados, existentes resistentes, há quem durma na cozinha ou na pia, ou na calçada triste, há quem arranje namorada, amante, fugas dissonantes
e explode a camisinha, explode no final do dia, sente solidão e vê umas descaradas, elas estavam tristes e trepavam, viu o rock, o reggae, o pop, os mamelucos, os escravos, em formas de almas desgraçadas, a solidão que nada, quero é sair por aí tomar muita cana cachaça e a mistura continua: "opa desculpa, opa tio"
quantos amigos, quantos sorrisos

todo mundo se conhece, todo mundo corre perigo todo mundo se esquece, menos eu que não esqueço do meu umbigo

e vão sorrindo juntos e pensando longe os outros umbigos
eles gritam e dizem: "amém, estou bem" camarote, trio elétrico fora de época
como se precisasse de época pra isso
a alegria está solta no ar
as fantasias se comem pelo mar
as hipocrisias se misturam as maravilhas, os cheirados
os desgraçados, os caretas, os médicos, os empregados
e desempregados, os mulatos, os criminosos estupradores
e ladrões, os maconheiros, os marginais, os ufanistas
os políticos, os malucos, e todos somos malucos e sobre tudo
os surdos, mudos, mortos, vultos, e tudo vai bem não é mesmo meu bem? em todos momentos pensamentos, que se batem negros que se invadem, gringos que se esbaldem e dançam duro
o arrocha que o nosso povo gosta e gosta muito
e vai e vem remexendo meu bem
é muito mistura e ninguém aqui está zen, e versos
estes nunca podem faltar, falsar

é iemanjá que comemora, que dança, o carnaval e a folia que se joga e está chegando e Jesus que não larga seu vinho
mas também não esquece seu oficio, seu pranto
seu martírio.

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